segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Ana Larousse (BIOGRAFIA)

Quem parte leva ou deixa no lugar algo sólido: a ausência – dos cheiros, das paisagens, das coisas e, especialmente, do outro.
 São as canções de Ana Larousse que estão a dizer, e bem demais. Ana conhece muitas formas de partidas e chegadas, retornos e esperas. Sim, não há encontro, nem se dá adeus, quero dizer, não se ama de um jeito só. São as próprias composições que estão a falar-me, e é lindo o que ouço.
Porque são canções-janelas, fecham e abrem lentamente como pálpebras que demonstrassem gratidão. São canções-estradas, resistem ao percorrer mapas do outono.
São canções-bagagens, trazem Paris dentro dobrada entre cachecóis e lãs.
 Mas sua delicadeza não tem nada de ingênuo. Sua voz é doce, suave, daí a nos cortar como berros que, numa espécie de retroalimentação, vem de dentro e para dentro, e calam fundo. Então releio as letras, elas tem densidade poética: peso, tensão, cores robustas, imagens que são colhidas num mundo raro. Contrastes. Ana canta o que dói de um jeito que salva.
Suas melodias emanam luz sépia e neblina. E mesmo após o amanhecer, essa moça linda sabe cantar ainda mais baixinho, que é para não espantar as ausências.