terça-feira, 24 de outubro de 2017

Nivaldo Ornelas (BIOGRAFIA)

Nivaldo Lima Ornelas nasceu em 1941 em Belo Horizonte, Minas Gerais, numa família de músicos, cantores e artistas. Tomou as primeiras lições aos 12 anos com o professor Lindolfo Caetano (acordeon). Estudou teoria musical e clarinete na Escola de formação Musical da PMMG com Ney Parrella, ingressando, em seguida, na escola de música da UFMG, onde estudou mais teoria musical com Luis Melgaço e composição com
Arthur Bosman.

​Em 1963 entrou para a banda de baile de Célio Balona, deixando pra trás o clarinete e se especializando no saxofone tenor. No ano seguinte foi fundado o Bar Boate Berimbau, no edifício Malleta, tendo como idealizador Antônio Moraes, e como sócios Nivaldo, Paschoal Meirelles, Helvius Vilela e Ildeu Soares. Na onda dos conjuntos de bossa-nova que proliferavam na cena musical, os da casa eram o Tempo Trio (Helvius, Paschoal e Ildeu) e o Berimbau Trio (Wagner Tiso, Milton Nascimento e Paulo Braga), sendo que esse último freqüentemente se transformava no Berimbau Quarteto com a participação de Nivaldo no saxofone.

O grupo tocava o repertório da época, standards de jazz e bossa nova, mas Nivaldo também sugeria alguns arranjos para temas tradicionais e cantigas de roda, uma idéia que iria aproveitar em seus discos. Depois de alguns meses de prejuízo o Berimbau fechou suas portas em 1965, mas havia marcado época na cidade. Algum tempo depois se organizou o Festival de Música Mineira no Rio, seguindo uma caravana com vários músicos para o Clube da Aeronáutica no Centro do Rio. O show foi ótimo, mas com uma platéia pequena, por falta de divulgação do evento.
No entanto, a viagem, se mostrou proveitosa, pois no dia seguinte foi feito o convite para que a turma gravasse um disco nos estúdios da Musidisc. O LP "Expansão", gravado em uma tarde, continha basicamente o repertório do espetáculo, com Nivaldo fazendo o arranjo da faixa "Mensagem" - composição de Eduardo Prates. Vários mineiros ficaram no Rio, como Paschoal e Wagner, mas Nivaldo voltou para BH. Nessa época ele estava dissecando os discos de John Coltrane, tirando todas as harmonias e solos. Com Paulo Braga (bateria), Jairo Moura (piano) e Tibério César (baixo) formou em 1967 o Quarteto Contemporâneo, que se destacava por longas improvisações free e por ter temas de Coltrane em seu repertório, como "Impressions". Nivaldo já dava início à sua carreira de compositor, apresentando algumas das suas criações no quarteto. Pouco sobreviveu desse período de laboratório de composição (mas "Cactus", por exemplo, conseguiu ser gravada nos anos oitenta). Em 1969 Nivaldo recebe o prêmio de melhor arranjo do Festival Estudantil da Canção por "Como Vai, Minha Aldeia", composição de Tavinho Moura defendida por Marilton Borges.

Em 1971 Nivaldo Ornelas finalmente foi encontrar os outros mineiros de sua geração no Rio de Janeiro, ao ser convidado para fazer parte da Banda Jovem de Paulo Moura. O conjunto estava sendo remodelado e Ornelas se junta a outros como Márcio Montarroyos, Claudio Roditi, Paschoal Meirelles e Osmar Milito. Em 1973 vai morar em São Paulo, por alguns meses, para participar do grupo de Hermeto Pascoal. Ele já havia chamado a atenção do músico alagoano antes da partida deste para os Estados Unidos, para trabalhar com Airto Moreira (e Miles Davis). Com Hermeto, Nivaldo passa a tocar também saxofone soprano e flauta, juntando-se à Nenê (piano e bateria), Hamleto (flauta) e outros. Neste ano, também, participa da gravação do LP "Milagre dos Peixes" de Milton Nascimento. Apesar do prestígio entre os músicos o trabalho de Hermeto tinha um público ainda muito reduzido - mas isso mudaria no decorrer da década. Nivaldo sentiu a barra e decidiu, em vez de voltar direto pro Rio, passar seis meses em Belo Horizonte para estudar e aprimorar sua técnica. Convidado para participar do grupo de Milton na excursão do LP Milagre dos Peixes, volta ao Rio. A banda de apoio era o Som Imaginário, que havia passado por algumas formações e já lançado três LPs. Nos dias 7 e 8 de maio de 1974 Milton e o Som Imaginário - Wagner Tiso (teclados), Toninho Horta (guitarra), Nivaldo Ornelas, Luis Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria) - acompanhados de orquestra regida por Paulo Moura, gravaram LP "Milagre dos Peixes Ao Vivo" no Teatro Municipal de São Paulo. Neste LP o grupo teve direito à faixa de abertura, uma seqüência de "Matança do Porco" (Wagner Tiso) e "Xá Mate", a primeira composição de Ornelas a ser gravada. O Som Imaginário acompanhou Milton nessa excursão, mas essa formação não chegou a desenvolver trabalho próprio.

Nessa época Nivaldo estava com a cabeça bem direcionada para o trabalho com Milton. "Minas", de 1975, não teria acompanhamento oficial do Som Imaginário na capa e encarte, mas a banda era uma continuação do que havia sido feito no ano anterior. As composições e os músicos estavam afiados e, como era comum nos discos de Milton nos anos setenta, todos davam sugestões sobre os arranjos e os climas. Foi na faixa "Fé Cega, Faca Amolada" que Nivaldo sugeriu uma idéia simples de contraponto ao sax soprano, que ficou eternamente ligada à canção. Em setembro de 1975 saía o disco de Milton, e no mês seguinte o Som Imaginário fazia no MAM sua primeira apresentação própria em alguns anos. Era a banda de Milton da excursão do "Minas": Wagner, Nivaldo, Toninho Horta, Novelli (baixo) e Paulo Braga (bateria). Ao fim desta, Wagner e Nivaldo decidiram que o grupo tentaria novamente carreira própria. Em 1976 o Som Imaginário, agora com Wagner, Nivaldo, Paulinho, Toninho, Jamil Joanes (baixo) e Fredera (guitarra) excursionou por várias capitais brasileiras e rodou o circuito universitário. O grupo infelizmente não chegou a lançar um novo LP, mas gravou algumas contribuições para a trilha sonora do documentário "Trindade", de Tânia Fonseca e Luiz Keller. Os temas novos como "Igreja Majestosa", "Cafezais sem Fim", "Rock Sobre Patins / Banda da Capital" e "Arqueiro do Rei" só foram aparecer nos trabalhos solo de Nivaldo e Wagner. Também em 1976 Nivaldo fez um breve retorno à banda de Hermeto Pascoal, então com sua "cozinha paulistana" e músicos de sopro que variavam de show a show. Nessa fase Nivaldo grava um disco de Hermeto no estúdio Vice-Versa, que permanece inédito até hoje, e, no mesmo ano grava o disco "Corações Futuristas" de Egberto Gismonti, excursionando com sua banda "Academia de Danças".