sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Tempo de Fratura (Álbum) Alcides Neves

aixas:
01. Tempo de Fratura
02. Desencontro das Águas
03. Lampião
04. Hibernante in Tempore
05. Tango
06. Banquete na Casa de Pedra
07. O Trem
08. Urubuzalê
09. Aventuras de um Luso-tropical
10. Los Invasores
11. Desen(fado)

Logo fica claro que trata-se de um artista disposto a trabalhar com sonoridades diferentes e experimentais, como na faixa-título. Porém esse primeiro impacto, que bem pode espantar alguns, é quebrado em seguida pela bela Desencontro das Águas, que vai ser ouvida com especial carinho pelos paulistas.

Lampião sem dúvida é uma das formas mais belas e poéticas de tratar o famoso guerrilheiro do sertão. Destrinchando sistematicante a construção do mito, que começa com "mais de 700 cavaleiros" que invadiram o mundo inteiro até chegar a "100 ou 50 nas quebradas do sertão"... Afinal, como é cantado, "Não é mentira não", é cultura!

Já com Hibernante in Tempore voltamos com sonoridades (e, no caso, letras) mais difíceis, mas nem por isso menos prazerosas de se ouvir, desde que com a cabeça aberta, claro. Destaca-se o irônico "Deus nasceu na Ámerica"...

Tango, belíssima composição, bem poderia ser o possível hino de uma América Latina (ou Batida?) unida - e derrotada.

Banquete na casa de pedra é uma canção que soa muito diferente do resto do álbum, mas mesmo assim é muito boa. A letra se destaca.

O Trem, mais uma música de um tema tão forte para nossa cultura, sobre o qual já cantaram Raul Seixas, Gonzaguinha, Mercado de Peixe, entre outros. Desnecessário ressaltar a originalidade da música, captando tanto a força quanto a melancolia de um "trem velho" que chega na estação vazia, aliás "não tinha nem estação não senhor"...

Urubuzalê é sem dúvida a mais experimental do álbum, e pelo menos eu demorei um pouco a gostar dela. Parece uma mistura de poesia concreta com Arrigo Barnabé.

Aventuras de um Luso-Tropical tem uma grande pompa e imponência. Devo confessar particular apreço pelos metais meio desencotrados dessa música, além da encantadora letra, na verdade uma carta de D. Pedro II a seu pai. "Napoleão das Antas" é simplesmente genial.

Los Invasores tem um arranjo vigoroso e inventivo, com uso intenso de flautas doces - muito bem utilizadas.

Finalmente, Desen(fado) tem um peso, uma agressividade que contrasta com sua letra singela. Sem dúvida uma das melhores músicas do álbum, para fechar com chave de ouro.

Em suma, vale a pena ouvir e tirar suas próprias conclusões sobre um grande artista, que infelizmente não vem recebendo a devida atenção.