terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Raquel Saraceni (BIOGRAFIA)

O tempo me guardou você marca a estreia fonográfica de Raquel Saraceni. Trata-se de um álbum repleto de delicadezas, que fala de amores e encontros. Uma obra que retrata fielmente o momento artístico e pessoal de sua protagonista.

A trajetória de Raquel como atriz começou cedo: aos 17 anos ingressava no Teatro Oficina, em São Paulo, sob direção de José Celso Martinez Corrêa (com o grupo, fundaria a Companhia Oficina Uzyna Uzona). Além de atriz, tornou-se videasta, responsável pelo arquivo eletrônico do Teatro Oficina.

Para entender melhor de onde vem a paixão pela música é preciso voltar no tempo. Neta de avós franceses, sua mãe nasceu em Paris. Paulistana de nascimento, Raquel Saraceni cresceu em uma casa musical: “Minha mãe adorava cantar e tinha uma linda voz. Depois fui criada por minha avó, que adorava música clássica e grandes nomes da música popular, como Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves, Dalva de Oliveira e Francisco Alves”, relembra. A trilha sonora variada incluía ainda artistas como Elis Regina, Rita Lee, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Beatles, Simon & Garfunkel, Os Mutantes, Maria Bethânia, Ney Matogrosso, Roberto Carlos, Roberto Carlos, Chico Buarque de Holanda...

Ainda como atriz de teatro e cinema, em São Paulo e no Rio de Janeiro, Raquel fez participações como vocalista antes de mudar-se para a França em 1991, onde viveu por mais de duas décadas. “Saí quando o Collor entrou. Com o desejo de estudar francês, fui em busca de independência e liberdade em um país com o qual tenho laços familiares”, conta. Trabalhando como guia de turismo em Paris, fundou o “Trio Sabiá" com o violonista Carlos Sandroni e Christian Duuvort na percussão. Era a música marcando presença, mesmo que sem maiores pretensões, pelo puro prazer de cantar. Anos depois, já na cidade francesa de Nancy, Raquel integrou o trio LUCKY JAZZ. Na temporada francesa, Raquel especializou-se como guia intérprete-conferencista e estudou cinema na Sorbonne.

Em 2012, quando se dizia que o mundo ia acabar, uma nova vida começou para Raquel. “Reencontrei o grande amor de quando eu tinha 20 anos, nos casamos e voltei ao Brasil, para o Rio de Janeiro. Foi essa parceria na vida e na arte que fez com que o projeto de gravar um disco se tornasse real”, celebra Raquel. O amor da juventude é o tarimbado maestro e compositor de trilhas sonoras Sergio Saraceni, que assina a direção musical e duas faixas do CD.

O álbum chegou na hora exata e reflete as experiências artísticas e de vida de Raquel, até aqui. Aos poucos, compositores e músicos amigos foram sendo arregimentados para o projeto. “Todas as opiniões positivas que recebemos foram muito importantes. Nos deram segurança, confiança no que estávamos produzindo. O artista sempre quer ter o feedback do ouvinte: cantar pra gente mesmo, não tem graça. Ter esse retorno estimula muito”, celebra. E o time de compositores reunido por Sergio e Raquel é dos mais refinados.

“O Dori Caymmi foi uma descoberta maravilhosa, eu conhecia mais obra do Dorival. Ivan Lins eu já admiro há tempos, até porque ele compôs muitos dos clássicos da MPB. A nosso pedido, ele abriu o baú de composições e nos presenteou com duas canções inéditas”, comemora entusiasmada. “´Samba de Vison” por exemplo, caiu como uma luva: composto por Ivan, Michel Legrand e letra de seu filho Claudio Lins, faz uma conexão entre Paris e Rio, onde moro atualmente, e o Ivan nem sabia da minha relação com a França quando nos mostrou a canção!” A colaboração de Ivan Lins se completa com as canções “Acaso” (com Abel Silva), “Um gesto qualquer de carinho” (inédita e só de Ivan), na qual toca teclados, e “O tempo me guardou você”(com Celso Viáfora).

Gilberto Gil entrou na seleção final com “Amor até o fim”. Ronaldo Monteiro de Souza, parceiro de Ivan na clássica “Madalena”, assina “Doce Castigo” com Sergio Saraceni, que, por sua vez, compôs “Um grande amor” com Totonho Villeroy. Completam a lista Chico Buarque (“Fora de Hora”, parceria com Dori Caymmi), Paulo Cesar Pinheiro (“É o amor outra vez”, parceria com Dori), Rosa Passos e Fernando Oliveira (“Samba sem você”).

O músico e maestro Jaques Morelenbaum faz uma participação especial na faixa “Fora de Hora”. A banda que acompanha Raquel é formada por craques com Zeca Assumpção (contrabaixo acústico), Lula Galvão (violão), Sidinho Moreira (percussão), Rodrigo Sha (flautas), Carlos Trilha (teclados), Marco Brito (piano e teclados), Alex Fonseca (bateria), Marcos Bonfim (sax tenor), Marcio Andre (flugel e trumpete) e Leonardo de San Leandro (trombone).

Longe da pressão e das cobranças comuns aos iniciantes, mas com muito entusiasmo, como gosta de ressaltar, Raquel Saraceni acredita nos traçados que só o destino sabe fazer. “Não creio em coincidências. Eu não esperava gravar um disco, mas acho que tem um plano por trás de tudo isso. Talvez até em resposta a um desejo da minha alma que precisava manifestar esse dom em algum momento. O lado bom de me lançar agora é que não existe aquela ansiedade, aquela busca pelo sucesso rápido, nada disso”, pondera.

Parafraseando a canção de Ivan Lins e Celso Viáfora, o tempo nos guardou a cantora Raquel Saraceni, que agora pede passagem no seu ritmo. Sem pressa, com suavidade e elegância.